quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A UNÇÃO COM ÓLEO

Há muitos desvios praticados no pseudo-cristianismo da atualidade.
Um deles é a unção de pessoas com óleo com os mais diversos objetivos, principalmente o de curar ou conceder algum tipo de poder espiritual.
Praticantes e defensores do costume insistem em dizer que há passagens bíblicas que ensinam unção com óleo e que há pelo menos uma em Tiago 5.14 “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor;” que ensina a ungir os enfermos com óleo com a finalidade de cura milagrosa. – Vale ressaltar aqui que o texto bíblico fala “azeite” e não óleo da unção, ou que seja especifico e não era qualquer óleo, mas, como veremos logo a frente era azeite de oliva.
Nosso propósito neste breve estudo é verificar se realmente existe alguma autenticidade em tais afirmações, se há, de fato, algum respaldo bíblico para esse comportamento.

A Origem da Unção Com Óleo no Povo de Deus

Em Êxodo 30.22-33
22
Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo:
23
Tu, pois, toma para ti das principais especiarias, da mais pura mirra quinhentos siclos, e de canela aromática a metade, a saber, duzentos e cinqüenta siclos, e de cálamo aromático duzentos e cinqüenta siclos,
24
E de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de azeite de oliveiras um him.
25
E disto farás o azeite da santa unção, o perfume composto segundo a obra do perfumista: este será o azeite da santa unção.
26
E com ele ungirás a tenda da congregação, e a arca do testemunho,
27
E a mesa com todos os seus utensílios, e o candelabro com os seus utensílios, e o altar do incenso.
28
E o altar do holocausto com todos os seus utensílios, e a pia com a sua base.
29
Assim santificarás estas coisas, para que sejam santíssimas; tudo o que tocar nelas será santo.
30
Também ungirás a Arão e seus filhos, e os santificarás para me administrarem o sacerdócio.
31
E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Este me será o azeite da santa unção nas vossas gerações.
32
Não se ungirá com ele a carne do homem, nem fareis outro de semelhante composição; santo é, e será santo para vós.
33
O homem que compuser um perfume como este, ou dele puser sobre um estranho, será extirpado do seu povo.
Observamos que Deus estava estabelecendo as primeiras diretrizes para o seu povo que libertara do cativeiro no Egito e que colocara em uma peregrinação em direção à terra prometida.
Estava estabelecendo mandamentos concernentes ao culto de um modo geral; o local onde seriam realizados os cultos e os comportamentos com respeito ao culto.
Dentre os mandamentos estava o de que fosse preparado um óleo que foi chamado de óleo sagrado da unção.
Era um preparado específico que tinha uma fórmula específica ditada pelo próprio Deus a Moisés e não era, de maneira alguma, somente o óleo da oliveira ou azeite.
Era, também, uma fórmula que não poderia ser copiada por ninguém sob pena de ser banido do povo de Deus.
O óleo da unção tinha objetivo definido e era o de santificar os elementos do culto, se consagrá-los completamente para Deus.
Por isso, após a sua preparação, deveria ser aspergido sobre o tabernáculo, sobre os móveis, sobre o altar e sobre os sacerdotes.
Tudo deveria ser santificado através da aspersão do óleo da unção.
Mas havia uma proibição: o óleo da unção não poderia, de maneira nenhuma, ser aplicado sobre o corpo de alguém e somente os sacerdotes poderiam ser ungidos com o óleo.

O Significado da Unção Com Óleo no Antigo Testamento

No Antigo Testamento tudo o que envolvia o culto era simbólico e provisório.
A caminhada pelo deserto, o tabernáculo, o altar, o animal sacrificado, os sacerdotes.
Tudo figurava as realidades definitivas que seriam estabelecidas por Jesus no Novo Testamento, quando, então, envelheceria o Antigo Testamento.
A unção com óleo sagrado também era simbólica e provisória.
O óleo seria preparado por Moisés, o libertador e seria derramado sobre os elementos do culto, que também era provisório e simbólico.
O tabernáculo e a arca significavam a presença de Deus e o sacerdote era o mediador entre Deus e os homens, santificado para isso.
Os textos do Antigo Testamento que fazem referência à preparação e utilização do óleo sagrado da unção são muito definidos.
No hebraico são utilizadas as palavras “shemen” (óleo), “qodesh” (separado para Deus, sagrado), e “mishchah” (consagração, unção para consagrar).
A utilização dessas expressões aponta claramente para o fato de que a unção com o óleo sagrado significava que objetos, lugares e pessoas estavam sendo especialmente consagrados a Deus, separados em santificação para ele.
Não existia qualquer significado de cura ou de atribuição de poder.
Só havia este significado quando a unção era realizada com o óleo preparado por Moisés de acordo com a fórmula e critérios estabelecidos por Deus.
Quem se utilizasse do óleo de maneira diferente ou para ungir qualquer pessoa era banido do povo de Deus.
Há quem diga que o óleo significa a presença do Espírito Santo, no entanto não encontramos tal ensinamento ou afirmativa nas Escrituras.

O Significado da Unção Com Óleo no Novo Testamento

Existem alguns textos no Novo Testamento que fazem referência a algum tipo de unção com óleo e através da análise desses textos podemos ter uma visão do significado dessa prática no Novo Testamento.
Primeiramente precisamos observar que em quase todos estes textos a palavra grega utilizada que é traduzida por óleo é elaion que designava o óleo de oliva, ou seja, todos eles fazem referência a uma aplicação de óleo de oliva, de azeite que era utilizado para combustível de lâmpadas, para cura de doentes, para ungir a cabeça e o corpo em festas e como artigo de cozinha.
Não há qualquer referência à aplicação de óleo sagrado da unção, a não ser em Hebreus 1.9 “Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu Com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.” onde o escritor sacro faz referência ao Antigo Testamento, à unção do Messias, utilizando a palavra “elaion” juntamente com a palavra “crio” que era utilizada para fazer referência à unção para consagração.
Em todos os outros textos a palavra que é traduzida por ungir é “aleipho” que era utilizada para todo tipo de aplicação de óleo sobre o corpo.
Dicionaristas indicam que “aleipho” era a palavra secular para ungir e que “crio” era a palavra sagrada ungir com a finalidade de consagração.
Depois, analisando cada texto à luz do significado da palavra “elaion” podemos compreendê-los e compreender o significado da utilização do azeite de oliva no Novo Testamento.
Em Marcos 6.13 “E expulsavam muitos demônios, e ungiam muitos enfermos com óleo, e os curavam.” observamos que o azeite era aplicado para a cura dos enfermos como medicamento.
É o mesmo sentido em Lucas 10.34 “E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;” que faz referência ao tratamento dos ferimentos do judeu pelo bom samaritano, e é o mesmo sentido em Tiago 5.14 “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor;” onde há o conselho para que o enfermo seja medicado em nome do Senhor.
Em Lucas 7.46 “Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento.” Jesus estava repreendendo o judeu que o recebera em uma reunião festiva e não ungira a sua cabeça com azeite em sinal de amizade e boas vindas como era costume dos Judeus na época.
Quanto ao texto de Tiago 5.14 “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor;” não há que se estranhar que seja ensinada a aplicação de medicamento em nome do Senhor, acompanhada de oração.
No Antigo Testamento há o exemplo de cura de Ezequias, da parte de Deus, através da aplicação de medicamento que foi mandado preparar pelo profeta Isaías em 2Reis 20.1-7
1
NAQUELES dias adoeceu Ezequias mortalmente; e o profeta Isaías, filho de Amós, veio a ele e lhe disse: Assim diz o Senhor: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás, e não viverás.
2
Então virou o rosto para a parede, e orou ao Senhor, dizendo:
3
Ah, Senhor! Suplico-te lembrar de que andei diante de ti em verdade, com o coração perfeito, e fiz o que era bom aos teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo.
4
Sucedeu, pois, que, não havendo Isaías ainda saído do meio do pátio, veio a ele a palavra do Senhor dizendo:
5
Volta, e dize a Ezequias, capitão do meu povo: Assim diz o Senhor, o Deus de Davi, teu pai: Ouvi a tua oração, e vi as tuas lágrimas; eis que eu te sararei; ao terceiro dia subirás à casa do Senhor.
6
E acrescentarei aos teus dias quinze anos, e das mãos do rei da Assíria te livrarei, a ti e a esta cidade; e ampararei esta cidade por amor de mim, e por amor de Davi, meu servo.
7
Disse mais Isaías: Tomai uma pasta de figos. E a tomaram, e a puseram sobre a chaga; e ele sarou.
Entendemos que no Novo Testamento não há a unção com óleo com a mesma finalidade que havia no Antigo Testamento.
Não existe óleo da unção no Novo Testamento porque a fórmula feita por Moisés não poderia ser copiada e porque não existem os elementos de culto do Antigo Testamento no Novo Testamento.
Não existe Tabernáculo, não existe altar, não existe arca, não existe sacerdote.
Não existe nada disso para ser consagrado.
O ungido de Deus já veio e todos os servos de Deus são consagrados através dEle.
O culto não depende de lugares consagrados, nem de objetos consagrados, nem de sacerdotes.
No Novo Testamento só encontramos unção com óleo com a finalidade de aplicação de medicamento.

A Prática Religiosa da Unção Com Óleo nas Igrejas de Nosso Tempo

Se não existe na Bíblia o chamado “óleo ungido”, se não há na Bíblia a aplicação do óleo da unção para cura milagrosa ou para aquisição de poder espiritual, onde estaria, então, a base para a prática da aplicação de óleos (os mais diversos) sobre enfermos e pessoas que desejam uma melhoria espiritual em suas vidas, como tem sido tão praticado no meio chamado evangélico em nossos dias?
Certamente o que não é bíblico é de origem pagã.
A Igreja Católica adquiriu práticas do paganismo romano com todo o seu misticismo.
Rituais místicos de purificação foram adaptados e nessa adaptação foi criado o sacramento da crisma, palavra que tem origem no grego “críein”, derivada de “crio”, que significa ungir no sentido de consagrar para Deus como vimos anteriormente.
É uma prática que tem origem no catolicismo onde ainda persistem as práticas do Antigo Testamento mescladas com o paganismo romano.
A prática da unção com óleo foi trazida para o seio das igrejas evangélicas pelos adeptos do pentecostalismo, que baseiam suas crenças em símbolos, que buscam poder sobre espíritos malignos e enfermidades (que consideram geradas por espíritos malignos), que se aproximaram e se aproximam cada vez mais do primitivismo religioso.
Tem sido introduzido nas igrejas batistas e outras por líderes que são simpatizantes do pentecostalismo, que abandonaram a Bíblia como única regra de fé e prática, que interpretam a Bíblia conforme seus próprios interesses e que procuram exercer um domínio espiritual sobre seus liderados através de atos religiosos supostamente de poder.

Concluindo

A unção com óleo sagrado foi uma prática estabelecida por Deus, no Antigo Testamento, com a finalidade de consagração de elementos do culto que deveria ser, em tudo, santificado.
Não é uma prática que tenha continuidade no Novo Testamento considerando que o culto do Antigo Testamento foi abolido na morte de Jesus Cristo com todos os seus elementos físicos, humanos e espirituais.
O texto do Novo Testamento registra a unção com óleo como uma prática de aplicação de medicamento (o azeite de oliva era considerado um medicamento eficiente para várias enfermidades – que é provado cientificamente o valor e poder medicinal, mas, nas igrejas hoje não usam azeite de oliva).
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento não existe qualquer ensinamento a respeito da utilização de óleo com a finalidade de cura milagrosa ou de obtenção de algum tipo de poder espiritual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário